sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Ressurreição

Depois de uma EBD, em junho de 2007. Não havíamos combinado nada, hahaha!

“Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto?” (João 11:25-26).

No dia 13 de julho de 1932 veio ao mundo aquele que ficou conhecido, às vezes como Seu João, às vezes como irmão João (há quem chegou a lhe chamar Seu irmão João). Por mim ele era chamado simplesmente de “vô”... Meu avô paterno faleceu quando meu pai era ainda adolescente, de forma que o vô João foi mesmo a única referência de avô que tive. Não uma referência distante, visitada ou vista apenas na Páscoa, nos aniversários e nas festas de fim de ano. Uma referência tão próxima como a de um pai. Um bom pai. Por mais de 10 anos, todas as minhas tardes foram na sua casa! As memórias mais antigas que tenho dele são de um João de Maria que fazia compras no Rei da Feira, andava de bicicleta, limpava e arborizava terrenos, subia em telhados e saltava o balcão da cantina na antiga Vicente Costa. Era na casa dele que todos os irmãos, após o culto de domingo, se reuniam, enquanto as crianças passavam a noite brincando ao lado da casa. Era ele que todos saudavam e cumprimentavam – quem não conhecia o Seu João?!

Não lembro quantos anos eu tinha aí, mas me lembro muito bem da cena e do momento, porque a foto não me deixou esquecer... =)

Eu faço aniversário dia 10 de julho e o vovô fazia dia 13... Um aniversário que comemoramos juntos. Eu cedi a data... O vovô, o tema da festa! ;)

Uma fotografia de mestre! Haha! Eu que bati, hehehe...

Foi no aeroporto que eu o vi pela última vez... Madrugada de 28 de março de 2011. Dia em que deixei meu ninho e fui parar no Palabra de Vida Argentina. Ele se emocionou com a partida. A vovó perguntou por que ele chorava. Ele chorava de tristeza, e chorava de alegria também. Meu avô sabia bem de onde o Senhor o havia tirado e se arrependia de não ter começado a viver pra Cristo mais cedo... Mas estava muito grato a Deus pela Graça dispensada às gerações seguintes.
Queria muito ter vindo passar o Natal 2011 com a família, mas não foi possível. Passei o fim do ano na Fundação Esperança Viva, na Argentina, como já relatei em outro momento. De maneira que a última oportunidade que tinha de ver meu avô com saúde estável, o Senhor preferiu deixar passar. Então, faltando tão pouco para que eu retornasse ao lar, uma notícia no mínimo preocupante: “André, seu avô está hospitalizado”. Não me lembro de nenhum ano em que o vovô não tenha nos dado sustos assim. Um dos piores que recordo foi uma convulsão alertada pela Luísa, minha prima. Ele teve de ser carregado pelos vizinhos para um carro particular, porque não mandavam a ambulância. Mas, no final, ele sempre voltava. Muitas vezes fui dormir com ele no hospital, muitas vezes o vi com dores. Mas, no final, ele sempre voltava...
Nunca fui tão romântico ou entregado a fantasias ao ponto de pensar que meu avô nunca partiria. Mas minha oração sempre foi que ele fizesse a passagem tranquilamente, à noite, enquanto dormisse. Que ele fosse dormir ao lado da vovó e, no dia seguinte, acordasse nos braços do Senhor – sem correrias, sem hospitais, sem barulhos... Estando na Argentina, tão longe, mais precisamente a 3.826 km de distância, o medo foi muito maior que o de costume, mas estava confiante de que esta vez seria como as outras. Deus não permitiria que eu experimentasse essa dor estando separado assim da família. No mínimo, eu tinha absoluta certeza de que chegaria a tempo... Amigos (mais que amigos, irmãos!) oravam comigo – especialmente Jake Womack (de Ohio, EUA) e Alfonso Mota (de Guadalajara, México)... Mas Deus é soberano sobre todas as coisas, e aquilo que nós pensamos nem sempre é o melhor e, consequentemente, nem sempre nos acontece (Romanos 8:28).
Na noite de 27 de março desse ano, faltando apenas um dia para que eu completasse um ano no PV, eu recebi a notícia de que o Seu João se havia ido com o Senhor. O título do e-mail do papai dizia na caixa de entrada: “Júbilo no Céu”. Eu soube antes mesmo de abri-lo e lê-lo... Eu já imaginava que voltaria da Argentina, de uma forma ou de outra, diferente de como fui. Mas uma experiência como essa te muda e transforma em áreas bem específicas da vida.
Passei aquela noite no Centro Médico. Não. Não foi porque precisei de remédio, pelo menos não desses que se encontra na farmácia. Mas Deus cumpria em mim o que prometeu em Marcos 10:29-30. Alfonso, ou Poncho (como todos o chamam), já foi apresentado aqui. Ele foi quem fez cargo de mim durante todo o meu tempo no PV, quem foi meu chefe de quarto durante todo o ano (quando o mais comum é que os quartos mudem completamente a cada semestre), quem cuidou de mim em todas as vezes que adoeci. Trabalhando no CM, havendo de dormir ali e tendo acesso livre a essa área do PV, Poncho me levou para um apartamento vazio e, finalmente, eu pude chorar tudo o que eu precisava... A cada lembrança, um aperto no coração... Minha primeira luta foi contra a voz dos monólogos, contra o pensamento de que eu não havia me consagrado o suficiente, de que eu deveria haver orado mais... Porém já aprendi o correto a fazer nos momentos em que monólogos querem invadir minha mente – a solução é Filipenses 4:8, isso deve silenciar qualquer outra voz que não a de Deus.
Enquanto a igreja, soube mais tarde, fazia uma grande festa ao Senhor aqui, eu estava escondido do resto do mundo, entre quatro paredes... Poncho pacientemente esperou que eu chorasse tudo o que tinha pra chorar, comentasse e falasse do vovô o quanto eu quisesse e pudesse. Pegou, então, a Bíblia e começou... Bíblia, Bíblia, Bíblia... Deixa que Deus instrui e consola. E orou comigo... Depois me levou a outra sala e pôs música para tocar... Lembro bem o que dizia o coro da primeira: “Ah! Se me pudesses ver”... Ah! Se eu pudesse ter tido naquele momento um mínimo relance de como e onde meu avô está agora...
A noite foi passando, fomos madrugada adentro... E eu, depois de tantas leituras e canções, finalmente lembrei o que tinha que fazer. Ajoelhei-me junto a uma cadeira e orei uma das orações mais bonitas das que tenho em memória... Mesmo em meio a lágrimas, o Espírito me deu forças para agradecer a Deus pela Sua soberania, pelo Seu cuidado, pela Sua graça na vida do meu avô. Também pedi coisas... Uma das coisas que pedi a Deus foi que Ele não permitisse que isso me parasse ali. Porque ainda havia algo a ser feito – trabalho, ministério... Havia dezenas de senhoras, jovens e crianças sem Cristo esperando na Fundação no fim de semana. Eu disse ao Senhor que sairia de ministério aquele fim de semana mesmo com toda aquela dor! Ainda que, estando ali, eu sabia que me esperavam horas de trabalho solitário...
Poncho não tinha autoridade para que eu dormisse no CM aquela noite, embora essa fosse a vontade de ambos. De maneira que me acompanhou no frio caminho de volta ao quarto e nos despedimos ali. Era só Deus e eu... Naquela noite sonhei algo bem peculiar. Sonhei que toda minha família estava em uma plataforma branca e luminosa, em um cenário igualmente branco e refulgente. E, abaixo, a perder-se no horizonte, uma multidão de irmãos e amigos. E eu estava lá também, ao lado dos meus pais. E todos vinham nos saudar, abraçar, falando palavras de consolo e conforto. Até hoje, quando alguém me conta quão lotada estava a igreja pelo velório do vovô, é essa a imagem que vem na minha mente.
No dia seguinte, fui ao pueblo (ao povoado) de San Miguel del Monte, para falar com a minha família por Skype. Ali, sentado num banco da praça principal do vilarejo, abri minha caixa de e-mail. O primeiro e-mail que recebi depois da notícia do vovô tinha como título: “Mensagem de uma amiga distante”. Abri o e-mail sem nenhuma expectativa, mas fui grandemente consolado por Deus através dessa amiga distante, companheira no JK... Entre outras coisas, ela escreveu:

Oi Ed!!!!

Estou mandando este e-mail porque recebi a notícia sobre o seu avô. É uma pena que tenha sido uma situação triste que tenha me motivado, mas já aproveito para deixar algumas palavras.

Estive no culto na sua igreja hoje à noite. A igreja estava lotada, pelo que percebi que seu avô era muuuito querido.

Sua mãe disse que você estava muuito triste. O que posso dizer é que, como irmã em Cristo, sei que o consolo do Senhor supera nossas expectativas. Sua dor pode ser muito grande, mas ainda assim os braços fortes do Pai irão ampará-lo.

Gostaria de dizer que fui à igreja sem saber o que dizer aos familiares de seu avô, porque não sei o que falar para pessoas que sofrem este tipo de perda, mas tenho aprendido que às vezes a nossa presença basta. Então, por este e-mail, deixo minha "presença" a você.

Também queria confessar que sempre tive uma admiração pela sua família, pois ao longo dos tempos percebi que grande parte de sua família é composta de servos do Senhor. E eu intimamente desejei ter uma família assim.

Posso dizer que saí grandemente abençoada hoje da igreja por ver o testemunho de sua mãe, de sua tia, de seus avós. Para mim é um graaande conforto saber que isso é possível, ter uma grande família repleta de servos do Senhor. E quando ela mencionou sua bisavó, a primeira a se converter, percebi a fidelidade do Senhor em alcançar gerações e transformar uma família sem Deus numa grande família de servos do Senhor [...].

Sabe, hoje Deus renovou mais um pouco em mim uma fé da minha infância, num processo começado há mais ou menos um ano e meio atrás, quando passei a fazer parte da presbiteriana. Não sei exatamente o que provocou isso. Talvez o testemunho de sua mãe, sua tia, a palavra do pastor, as canções favoritas do seu avô que foram cantadas, a igreja ali presente para confortar os irmãos em Cristo...

[...]

Enfim, posso dizer que hoje a fé de seu avô fortaleceu minha fé. A fé de seus familiares me abençoou muuuuito. E sua fé também fortalece a minha.

Deus te abençoe e continue fortalecendo sua fé e a de sua família n'Ele, para que ela venha a fortalecer ainda a fé de muitos outros.

Abração.

Essas palavras foram para mim como uma gotinha de chuva caindo num deserto escaldante, como uma única velinha acesa no meio de uma grande tempestade... E agradeci muito a Deus porque era consciente de que não merecíamos ser vistos assim...
Quando voltei de ministério ao Instituto, na segunda-feira, dia 2 de abril, fui direto ao CM para comentar e compartilhar com Poncho a bênção que havia sido decidir não parar e seguir com a vida normalmente. E então, uma surpresa: a avó do Poncho, por quem orávamos desde o início do ano passado, havia partido no mesmo dia em que partiu o vovô, na terça-feira, mas ele só ficou sabendo na sexta, depois que eu havia saído, e só estava me contando agora na segunda, quando finalmente voltara. Quem lhe deu apoio e orou com ele durante aquele fim de semana foi o seu conselheiro, médico e chefe do CM... Fiquei chocado. Mas ele sorria... “Deus”, disse, “não nos diverte; mas Ele, às vezes, é engraçado”. Na verdade, ele agora se preocupava mais pelo pai, mas tudo aquilo que Poncho necessitava escutar no momento em que soube de sua avó na sexta, ele já havia me dito durante a semana. E tudo aquilo que ele tinha que fazer, ele já havia me visto fazendo... E nós dois rimos da situação. Era meu primeiro riso sinceramente despreocupado desde terça...
Durante a semana que se seguiu, voltou do Chile meu companheiro de ministério na Fundação, Juan Hinojosa (de Santiago). Confesso que durante o tempo em que estivemos juntos, trabalhando na Fundação, surgiram alguns problemas, a maioria por desentendimentos na comunicação. Quando soube da sua volta e que viria comigo em minha última ida à Fundação, fiquei com medo de haver mais problemas. Não queria voltar ao Brasil com nenhuma pendência desse tipo... E orava pedindo a Deus essa graça. Agora, Juan deixara o avô enfermo no Chile também. E na Fundação, ao compartilhar o tema, passamos a orar por essa situação. Porém, na manhã de domingo, dia 8 de abril, bem cedinho, ele recebeu pelo telefone a notícia de que seu avô havia partido. Naquele momento, tive a sensação de que tudo o que eu havia vivido poucos dias antes aconteceu somente por causa do Juan, somente para que eu pudesse estar ao lado dele naquele momento. Eu sabia exatamente o que tinha que fazer com ele, pois dias antes haviam feito o mesmo comigo. Oramos juntos, choramos juntos. Dei-lhe o mais longo abraço que jamais lhe havia dado... Foi uma das poucas vezes em que pude dizer sinceramente: “eu sei exatamente como você se sente”. Juan e eu, finalmente, havíamos nos entendido. Hoje ele continua firme e forte, apesar de todas as dificuldades, fazendo ministério na Fundação, e tem em mim um companheiro de oração...
Meu dicionário define “ressurreição” como “ato de reviver, ressuscitar, aparecer de novo”, mas também como “renovação, vida nova”, e ainda como “cura surpreendente e imprevista”. Se estivesse vivo hoje, meu avô estaria completando 80 anos; mas ele realmente seguiu o caminho de todos os homens... Voltei ao Brasil, ao lar, consciente de que não o encontraria para me recepcionar... Voltei em silêncio, voltei mudado por andar em caminhos espinhosos. Uma espécie de ressurreição interna... A partida do meu avô no meio... E, embora às vezes imagine o vovô chegando em casa a qualquer momento, por não ter participado do velório ou do enterro, não posso negar que ele realmente morreu e foi sepultado. Porém a marca que deixa com a sua partida, tanto naqueles que o conheceram intimamente como naqueles que nunca o viram, é um espírito renovador, consolador e cicatrizante, a esperança de uma fé, a vivificação de uma espera, a sabedoria de uma vida... Um fugacíssimo vislumbre interno do que acontecerá naquele grande e último dia de maneira gloriosa e descoberta! Meu avô ressuscitará com um corpo novo e se erguerá em glória! Não porque tenha sido um bom homem, ou porque ia à igreja, ou tinha uma religião. Mas porque creu que o Primogênito da Ressurreição, Jesus Cristo, com o Seu sacrifício e vitória sobre a morte, poderia limpá-lo e purificá-lo de todos os seus pecados, dando-lhe uma perspectiva de vida futura e eterna, mais além da razão, dos tesouros, dos confortos, dos problemas, das dores, das perseguições e de tudo aquilo que guarda esse mundo, seja desejável ou não. Meu avô levou consigo para diante de Deus a única coisa que podemos levar conosco daqui, uma alma. E a sua está justificada! Um presente imensuravelmente superior a qualquer outro que lhe daríamos hoje se ainda estivesse conosco. Aleluia!

(Postagem publicada originalmente em 13 de julho de 2012)

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