quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Na escola de Deus


Mais alguns dias e eu estarei completando um mês aqui no Instituto Palabra de Vida Argentina, em San Miguel Del Monte, Provincia de Buenos Aires. Já está mais do que na hora de falar sobre como tem sido a experiência...
Meu objetivo principal em vir até aqui é duplo: aprender a confiar mais em Deus e menos em mim mesmo e alargar minha consciência de que dependo unicamente dEle. Vir para outro país, sozinho, para experimentar coisas nunca antes tentadas é algo que pode muito bem intensificar esse amadurecimento que deve crescer na vida do crente com o passar do tempo.
Dias antes de viajar, uma notícia no jornal informou que os aeroportos brasileiros estão com um sério problema: roubo e extravio de bagagens. Ora, nada mais inconveniente para se escutar do que isso quando estamos prestes a viajar. Me pus a orar especificamente por isso. E pus outras pessoas pra orarem por isso também. Além de ter que enfrentar o medo de uma viagem de avião e de uma viagem para fora do país, tive que enfrentar o medo de uma bagagem perdida por aí mundo a fora. Acho que este foi o primeiro teste que Deus me passou (sem contar os problemas que tive com cartões, contas, etc.). Ora, não queria eu aprender a confiar em Deus? “Começa agora”, Ele disse. “Antes mesmo da viagem em si”. E tive que ver, impotente, minhas malas sendo levadas embora na esteira do check-in. Nessa época Deus me consolou com o último texto que postei aqui (de Spurgeon).
 

Cheguei aqui na tarde do dia 28 de março, uma segunda-feira, depois de umas 7 horas de voo e mais uma de estrada. Logo descobri que dois anos de espanhol não foram suficientes para que eu falasse lindamente e compreendesse a tudo e todos. Mesmo agora falo português com quem sabe falar português e inglês com quem sabe inglês. O espanhol eu arrisco só com quem só sabe falar espanhol. Não havia brasileiros aqui quando cheguei (hoje somos uns 7 ou 8).
O que passa comigo é que há dias e dias. Há dias em que estou de muito bom humor e tudo flui bem; mas quando estou desanimado até o inglês trava... Além do mais, aqui há equatorianos, colombianos, chilenos, paraguaios, uruguaios, peruanos, porto-riquenhos... Os argentinos são a minoria. E da mesma maneira que há diferenças gritantes entre o português de Portugal e o nosso, há muitas diferenças entre cada um desses povos. E quando eu finalmente estou me acostumando a uma maneira ou vocabulário de um grupo, vem outro que não entende ou interpreta mal o que o primeiro disse. Só para que tenham uma ideia, já ouvi uns 5 nomes diferentes para “casaco”; enquanto em alguns outros países “coger” significa “pegar”, aqui na Argentina esta é tida como uma palavra imoral; e por aí vai...

Gente de tudo quanto é canto das Américas.

Mas Deus tem cuidado de mim nos mínimos detalhes. Logo nos primeiros dias, fiz amizade com um argentino que fala português e a moça que me atendeu na inscrição do departamento que cuida dos assuntos concernentes à lei argentina de imigração é brasileira. Outra coisa que Deus tem feito é que cada pessoa que conheço aqui me lembra de alguém do Brasil. E não pensem que, na verdade, sou eu quem fica procurando semelhanças. Porque encontro pessoas que me trazem à memória até gente com quem nem falo mais, das quais me havia esquecido até chegar aqui. O resultado disso é que me sinto como num ambiente mais familiar, o que diminui em certo ponto o choque.
Falando em ambiente, não poderia haver lugar mais bonito para viver do que um campus de um IBPV. No caso da Argentina, tenho tido o privilégio de morar ao lado de um lindo lago, debaixo de um céu limpo e incrivelmente estrelado (ao menos essa época do ano), cercado por árvores e, às vezes, aves que nos vêm visitar e cantar pra nós. É um daqueles lugares pelos quais podemos chegar a pensar e dizer: “ainda há algo de verdadeiramente belo no mundo criado por Deus que o homem não conseguiu destruir”.



O tempo que passarei aqui se divide em três áreas principais: estudo, vida e ministério. Passei todos esses anos da minha vida estudando coisas certamente importantes, mas todas para mim mesmo. Não que Deus não possa usar professores (ou advogados, ou médicos, ou faxineiros, ou engenheiros, etc.). Mas este é o ano em que escolhi dedicar minha mente integralmente ao estudo da Palavra de Deus. Até dezembro, terei estudado aqui as seguintes disciplinas: Evangelismo e Discipulado, Vida Cristã, Gênesis, Hermenêutica, Bibliologia, Clubes Bíblicos, Síntese do Antigo Testamento, Métodos de Estudo, Seitas Heréticas, Mateus, Nomes de Deus, Síntese do Novo Testamento, Pentateuco, Angelologia e Teologia Própria e, finalmente, Geografia Bíblica. Todo esse conhecimento deve desembocar nas outras duas áreas. Vida aqui é sinônimo de trabalho, comunhão, respeito e responsabilidade. Me sinto vivendo em uma pequena cidade, onde todos têm que trabalhar responsavelmente para mantê-la. Aqui tem trabalho de sobra. Eu, por exemplo, estou lotado na área chamada de Mayordomia (mordomia) – a área com mais alunos trabalhando – e tenho, juntamente com os demais, que cuidar da propriedade do PV. Isso inclui varrer, limpar, lavar banheiros, quartos, auditórios, salas de aula, etc. Também todos os homens estão divididos em grupos que se responsabilizam pela limpeza da cozinha após as refeições. É uma cozinha industrial, é claro, e isso inclui também lavar aqueles panelões! Todo esse trabalho é justo, saudável e barateia o custo do Instituto. Quanto mais não teríamos que pagar caso se contratassem pessoas para fazerem os serviços? Fiquei num quarto com um equatoriano, um chileno, um porto-riquenho, um americano e um mexicano, que é nosso líder no quarto e o único de nós que não está fazendo o primeiro ano. Sempre antes de dormir fazemos uma roda para compartilhar sobre o dia e para orarmos uns pelos outros e por nossas famílias e amigos. Aos finais de semana, todos os alunos devem estar desenvolvendo algum ministério. De alguma forma, nós devemos levar aos outros aquilo que temos aprendido e experimentado. Ainda não fomos todos lotados nos ministérios, mas há de tudo nisso também – fundação de igrejas, trabalhos em igrejas locais, shows infantis, representações de histórias verídicas sobre vícios em drogas, trabalhos com esportes, música, em hospitais, orfanatos e cárceres – tudo sempre visando o evangelismo.
Em Esdras capítulo 7, versículo 10, lemos que “Esdras tinha disposto o coração para buscar a Lei do SENHOR, e para a cumprir, e para ensinar em Israel os seus estatutos e os seus juízos”. Com esse versículo, vemos na vida de Esdras essas três áreas sendo desenvolvidas. Buscar a Lei do Senhor é estudo; cumpri-la é vida; ensiná-la e falar dela aos outros é ministério. Não são áreas independentes. Ou as três caminham juntas, ou não caminha nenhuma.
Entrei para a escola de Deus. E o que venho pedindo Ele me concedeu – a primeira lição que estou aprendendo é DEPENDÊNCIA. Em Gênesis capítulo 12 vemos o Senhor iniciando a mesma lição na vida de Abraão. Já no versículo um, Ele pede que Abraão deixe pra trás tudo o que ele conhecia – “disse o SENHOR a Abraão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para terra que te mostrarei”. E o que vemos é que o pai da fé algumas vezes preferiu confiar nos seus próprios métodos ao invés de confiar no que Deus lhe havia dito (Gn 12:13; Gn 16:2; Gn 20:2). Mas graças a Deus que nessa Sua escola, temos segundas chances. De forma que Ele nos concede outras oportunidades para confiarmos na Sua provisão. No capítulo 13, por exemplo, vemos que Abraão não se importou em não ficar com a melhor das terras, estando ele descansado naquilo que Deus lhe prometera. E foi, assim, crescendo cada vez mais, até o ponto mais crítico de sua vida, o último dos testes, quando Deus, no capítulo 22, lhe diz: “Me dá aquilo que tens de mais precioso, aquilo sobre o qual repousa o cumprimento da minha promessa”. E vemos Abraão sendo aprovado com louvor. Deixa, descansa e me dá. São essas as ordens de Deus pra minha vida durante esse ano. Deixa... Descansa... Dá-me... São essas as etapas dessa grande lição.
E agora enfrento mais um teste; para mim, muito maior que o de bagagens... Depositei o dinheiro referente a todo o ano de estudos aqui na conta do Palabra de Vida Argentina. Fiz o depósito pelo Banco do Brasil no dia 15 de março. E, para minha surpresa, soube há poucos dias que o dinheiro não chegou. São mais de 3.000 dólares que foram pagos mas que o Instituto ainda não recebeu. E a administração me deu um prazo até o dia 15 de abril para que o dinheiro chegue. Bom... Se não chegar, só Deus sabe...
Estou, então, obviamente apreensivo, mas esperando e confiando em Deus. Crendo que Ele está me dando mais uma oportunidade para demonstrar que sei o que significa depender dEle. Não quero falhar nesse teste, como não falhei nos anteriores. E, caso falhe, esperarei e me prepararei humildemente para a recuperação. Por isso, se você chegou até aqui, não deixe de orar por mim. Tenho consciência de que, até agora, tenho caminhado por águas que me dão nos tornozelos, onde posso caminhar sem medo. Porém Deus quer que continue avançando até que passe por onde as águas me darão nos joelhos, e depois nos lombos, até o ponto em que meus pés não tocarão o fundo do rio e eu estarei num lugar onde não poderei fazer absolutamente nada a não ser depender do Senhor, quando Ele então virá e me levará para a outra margem do rio (Ezequiel 47:1-12). É uma tarefa difícil. Mas é uma tarefa saudável e necessária (versículo 9). Uma tarefa que trará vida e muitos peixes para a glória do Senhor! Aleluia!
Fui chamado para transtornar o mundo. Mas, antes (e durante), Deus vai transtornar em mim tudo aquilo que não lhe agrada. E já começou. Ele está transtornando o meu eu; está transtornando o meu orgulho, a minha autoconfiança – até que eu esteja pronto para o último dos testes. Nunca mais, depois desse tempo aqui no PV, estarei tão exposto à Palavra de Deus como agora. E, sabendo disso, quero mesmo me lançar nas águas mais profundas e obedecer as três ordens do Senhor pra mim: deixa, descansa e me dá. Em outras palavras: confia em mim e depende de mim. “Tu estás na minha escola agora”, me diz o Senhor.

(Postagem publicada originalmente em 11 de abril de 2011)

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