sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Ressurreição

Depois de uma EBD, em junho de 2007. Não havíamos combinado nada, hahaha!

“Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto?” (João 11:25-26).

No dia 13 de julho de 1932 veio ao mundo aquele que ficou conhecido, às vezes como Seu João, às vezes como irmão João (há quem chegou a lhe chamar Seu irmão João). Por mim ele era chamado simplesmente de “vô”... Meu avô paterno faleceu quando meu pai era ainda adolescente, de forma que o vô João foi mesmo a única referência de avô que tive. Não uma referência distante, visitada ou vista apenas na Páscoa, nos aniversários e nas festas de fim de ano. Uma referência tão próxima como a de um pai. Um bom pai. Por mais de 10 anos, todas as minhas tardes foram na sua casa! As memórias mais antigas que tenho dele são de um João de Maria que fazia compras no Rei da Feira, andava de bicicleta, limpava e arborizava terrenos, subia em telhados e saltava o balcão da cantina na antiga Vicente Costa. Era na casa dele que todos os irmãos, após o culto de domingo, se reuniam, enquanto as crianças passavam a noite brincando ao lado da casa. Era ele que todos saudavam e cumprimentavam – quem não conhecia o Seu João?!

Acampamentos Monte 2012


Por muitos anos fui aos acampamentos do PV em Benevides, Pará. Sempre ia como acampante e desfrutava de tudo desde esse ponto de vista. A primeira vez em que estive em um acampamento PV como equipante foi aqui, na Argentina. Além do fato de que estou em outro país, com outra cultura (ou outras culturas – aqui tem gente de todo lado), tudo é diferente desde o ponto de vista do equipante. Obviamente, pude me divertir e desfrutar das pregações e cultos, mas a oportunidade de servir no limite das forças e aprender outro tipo de lições só se dá quando se é equipante.

João 8:32




A segunda coisa sobre a qual escrevi à minha igreja foi o ministério que o Senhor tem me permitido realizar durante os finais de semana. Como já contei em outro lugar, o PV se divide em três áreas básicas – Estudo, Vida e Ministério. Por quase todo o ano, estive no ministério chamado G.E.A. (Grupo de Entrenamento y Apoyo – Grupo de Treinamento e Apoio). Ali, os alunos realizam atividades dentro da propriedade, saindo às vezes para evangelizar e apoiar igrejas. Foi lindo todo esse tempo no GEA. Aprendi algo especialmente em quanto a evangelismo de porta em porta... O que me incomodava, porém, era que quando havia uma conversão, deixávamos o contato com a igreja, mas eu mesmo nunca mais voltava a ver a pessoa.

Uma semana no...


Respondendo antes que alguém mais me pergunte... Sim! Eu ainda vivo! =)
Recentemente escrevi uma carta à minha igreja no Brasil, compartilhando um pouco do que Deus tem feito por aqui comigo. Escrevi sobre duas coisas específicas. A primeira foi uma viagem de uma semana ao PV-Chile no mês de setembro. A organização ali completou 35 anos, celebrados com uma campanha evangelística; de maneira que essa, obviamente, foi uma viagem missionária. Nunca me imaginei indo ao Chile, da mesma forma que nunca havia pensado no Uruguai...

Uma semana no...

Esteban (Argentina), eu, Verane (França), Anita (Chile), Dámaris, Vic, Andrea e Estela (Argentina) - grupo Maldonado.

Em toda a minha vida, jamais pensei que algum dia viria pra Argentina com objetivos missionários. Uma vez aqui, não cheguei a pensar que já teria, em tão pouco tempo, a oportunidade de trabalhar em um terceiro país. Mas, pelo que vejo, Deus está me fazendo experimentar de tudo um pouco...

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A melhor das provisões

“Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna.”

O mês do meu aniversário (julho) passou e o que eu pensei que seria um mês de melancolia por estar longe da família e velhos amigos foi o melhor que tive aqui até agora. Não me faltou trabalho (em breve falo da viagem ao Uruguai) e muito menos companhia. Deus me presenteou com um quarto magnífico nesse primeiro semestre e, sob a guia do Senhor, todos aprendemos a olhar mais acima das diferenças pessoais e culturais (cada um de nós era de um país diferente), ao ponto de cada um chegar a considerar os demais como sua família.
Morar dentro de um instituto bíblico me desafia em muitas áreas da minha vida, especialmente no trato com outras pessoas. Seja na hora de trabalhar, seja durante as aulas, seja no tempo de esportes, seja nos cultos, pra onde quer que eu vá vai haver pessoas com as quais terei que me relacionar e para as quais devo ser de bênção. Mas creio que o maior desafio é manter o testemunho no quarto. Depois de três meses, um quarto como o que tive aqui se transforma no lar, no particular, no privado. Temos que aprender a amar e a viver bem com aquele que ronca; com aquele que não é tão organizado como gostaríamos; com aquele que é mais organizado do que gostaríamos; com aquele que põe o despertador para bem cedo, acorda todo mundo, mas ele mesmo não desperta; com aquele que canta desafinado; com aquele que sempre esquece de tudo; com aquele que escuta o tipo de música que passa longe do seu; etc...

Imagem & Ação!

Um "olá" para minha querida Igreja Presbiteriana da Cidade Nova VI, Ananindeua-Pará-Brasil, e para os que querem ver e ouvir (e não somente  ler) o que tem sido o PV-Argentina... ¡Bendiciones!


Nota 1: Na verdade, estávamos a menos de 7 graus quando filmei isso... =p
Nota 2: Nunca pensei que isso aconteceria comigo, mas meu português... Digamos... Não é mais o mesmo... =/

(Postagem publicada originalmente em 1 julho de 2011)

Você pode mais que um cachorro!


As teias de aranha desse blog não se devem à falta do que escrever e sim à falta de tempo... Mas vamos lá, que quanto mais o tempo passa, mais as coisas se acumulam!
Durante o último feriadão de Páscoa, mês passado, tive a oportunidade de sair em uma campanha evangelística. Saí na sexta e no sábado. Passei esses dois dias, juntamente com outros alunos, evangelizando pela manhã e pela tarde. A mensagem que levemos é bem simples: todos somos pecadores (Romanos 3:23; Eclesiastes 7:20); a paga do pecado é a morte (Romanos 6:23); no Céu não pode entrar coisa suja (Apocalipse 21:27); nada do que o homem possa fazer alcançará a marca de Deus (Efésios 2:8-9; Romanos 4:5); Cristo pagou todos os nossos pecados na cruz e nos oferece Sua justiça (João 3:16; Romanos 5:8); para ser salvo, é necessário crer e receber a Cristo por fé (João 1:12); e “vida eterna” não quer dizer “até o próximo pecado” (João 6:37-40). Com estes versículos íamos desenvolvendo e apresentando o plano da salvação de Deus para aquelas ovelhas ainda sem pastor.

Na escola de Deus


Mais alguns dias e eu estarei completando um mês aqui no Instituto Palabra de Vida Argentina, em San Miguel Del Monte, Provincia de Buenos Aires. Já está mais do que na hora de falar sobre como tem sido a experiência...
Meu objetivo principal em vir até aqui é duplo: aprender a confiar mais em Deus e menos em mim mesmo e alargar minha consciência de que dependo unicamente dEle. Vir para outro país, sozinho, para experimentar coisas nunca antes tentadas é algo que pode muito bem intensificar esse amadurecimento que deve crescer na vida do crente com o passar do tempo.
Dias antes de viajar, uma notícia no jornal informou que os aeroportos brasileiros estão com um sério problema: roubo e extravio de bagagens. Ora, nada mais inconveniente para se escutar do que isso quando estamos prestes a viajar. Me pus a orar especificamente por isso. E pus outras pessoas pra orarem por isso também. Além de ter que enfrentar o medo de uma viagem de avião e de uma viagem para fora do país, tive que enfrentar o medo de uma bagagem perdida por aí mundo a fora. Acho que este foi o primeiro teste que Deus me passou (sem contar os problemas que tive com cartões, contas, etc.). Ora, não queria eu aprender a confiar em Deus? “Começa agora”, Ele disse. “Antes mesmo da viagem em si”. E tive que ver, impotente, minhas malas sendo levadas embora na esteira do check-in. Nessa época Deus me consolou com o último texto que postei aqui (de Spurgeon).

Alegrando-se nas saídas


“De Zebulom disse: Alegra-te, Zebulom, nas tuas saídas.” (Deuteronômio 33:18).

As bênçãos proferidas às doze tribos são nossas, pois somos o verdadeiro Israel, que adoramos a Deus em espírito e não confiamos na carne. Zebulom deveria se regozijar, porque Jeová abençoaria suas saídas. Nesta bênção a Zebulom, vemos subentendida uma promessa para nós mesmos. Quando sairmos, devemos procurar oportunidades de regozijo espiritual.
Estamos saindo para viajar, a providência de Deus é nossa escolta. Saímos em mudança para outro país, o Senhor está conosco tanto em terra como no mar [ou no ar, vale lembrar]. Saímos como missionários, Jesus nos diz: “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28:20). Saímos todos os dias para nosso trabalho, podemos fazê-lo com prazer, pois Deus estará conosco desde a manhã até ao entardecer.
Às vezes, um temor rompe em nosso íntimo, quando iniciamos alguma coisa, pois não sabemos com o que nos defrontaremos; todavia, essa bênção pode servir-nos adequadamente como uma palavra de bom ânimo. Enquanto embalamos nossas coisas para mudarmos de residência, coloquemos este versículo em nosso caminhão de mudanças. Devemos entesourá-lo em nosso coração e preservá-lo ali. Sim, tenhamos este versículo em nossos lábios, para fazer-nos cantar. Levantemos âncora entoando uma canção ou embarquemos no trem [ou no avião, eu diria] cantando um salmo. Pertençamos às tribos que se regozijam e, por onde quer que andemos, louvemos o Senhor com corações repletos de alegria.

- C. H. Spurgeon (leitura de 12 de março do “Promessas Preciosas”).

(Postagem publicada originalmente em 2 de abril de 2011)

"A Tempestade" ou "Paz, menino!"


Transtornar o mundo, ou seja, fazer aquilo que o mundo aborrece e o faz virar de cabeça pra baixo, é uma tarefa difícil. É difícil em casa, é difícil na igreja e é difícil na universidade... Enquanto estive cursando Letras na UEPA, o desafio foi constante: como viver minha vida de universitário glorificando a Deus em tudo o que fazia? Como fazê-lo num ambiente em que o Evangelho é constantemente tolhido? Muitas vezes fracassei; outras, creio que o fiz bem (minha colega T. sempre fez isso melhor que eu)...
O texto abaixo foi uma oportunidade que penso ter aproveitado (ainda que timidamente). A professora de Literatura Infanto-Juvenil fez com a turma um passeio pelo centro histórico de Belém. O objetivo era tirar fotos de tudo aquilo que nos chamasse a atenção. Depois, já em casa, deveríamos escolher uma das imagens e construir um texto literário baseado na foto escolhida. A versão final do meu texto ficou assim...

E eles viveram felizes para sempre


Terminando...

Voltemos ao C. S. Lewis:

Se a velha fórmula final dos contos de fada “e viveram felizes para sempre” for entendida como “e nos cinqüenta anos seguintes eles se sentiram exatamente da mesma forma como se sentiram no dia anterior ao casamento”, então ela está dizendo algo que provavelmente nunca foi e nunca será verdade, que inclusive seria altamente indesejável se o fosse [grifo meu]. O que seria do seu trabalho, seu apetite, seu sono, suas amizades? Mas, é claro que deixar de “estar apaixonado” não significa necessariamente deixar de amar. O amor, nesse segundo sentido – o amor como algo diferente de “estar apaixonado” – não é um simples sentimento. Trata-se de uma profunda unidade, alimentada pela vontade e deliberadamente fortalecida pelo hábito; reforçada (nos casamentos cristãos) pela graça que ambos os parceiros pedem e recebem de Deus. Os cônjuges podem alimentar esse tipo de amor um pelo outro mesmo naqueles momentos em que não se gostam; é o mesmo que acontece quando você se ama, mesmo quando não está gostando nada de si. Eles são capazes de manter esse amor, mesmo considerando que qualquer um deles possa facilmente se “apaixonar” por outra pessoa. Primeiro, o “estar apaixonado” os levou a jurar fidelidade; esse outro amor mais calmo os capacita a cumprir a promessa. É esse amor que mantém a máquina do casamento ativa; o estar apaixonado não passa da ignição que lhe deu partida.

Perceba que essa racionalização do amor feita adequadamente, como a temos apresentado até aqui, se aplica a todos os outros tipos de amores que não o Eros (o amor sexual). Aplica-se inclusive ao modo como Deus nos ama. Na verdade, Deus faz infinitamente mais, porque, ao contrário do que acontece nos nossos amores terrenos, Ele não enxerga inicialmente em nós nada que Lhe encha os olhos e mesmo assim nos ama (Dt 7:7-8). Então, sendo eu cristão, ou seja, um seguidor de Cristo, vou tentar fazer as coisas ao modo dEle, não importando quão difíceis elas sejam pra mim...
Bom. Então é isso. Agora você já sabe tudo o que eu penso sobre “estar apaixonado”, namoro e casamento. Mas você estará enganado se pensar que tirei tudo isso de livros e palestras de pastores somente... Porque eu comecei a raciocinar dessa forma depois que fui dormir na casa de um amigo e tivemos uma conversa sobre o tema (te lembras disso, Diego? ^^ )...
Por fim, gostaria de lembrar a ilustração do “velho” Eiró sobre o casamento. É como o triângulo abaixo:


Quanto mais próximos ambos estiverem de Deus, mais perto estarão um do outro. Não pode ser apenas um deles:


Tem de ser os dois...


FIM

 (Postagem publicada originalmente em 21 de março de 2011)

Algumas exceções... E ironias!


Continuando...

Não estou dizendo aqui que aborreço todos os livros e romances (tenho certeza de que Lewis também não). Cervantes, por exemplo, deu um show nesses assuntos ao escrever em D. Quixote:

Se todas as belezas enamorassem e rendessem, seria um andarem as vontades confusas e desencaminhadas, sem saberem em que haviam de parar; porque, sendo infinitos os objetos formosos, infinitos haviam de ser os desejos; e, segundo eu tenho ouvido dizer, o verdadeiro amor [de um casal] não se divide, e deve ser voluntário, e não forçado.

E, tratando da união do casamento, observa:

Quando Deus criou o nosso primeiro pai no paraíso terreal, diz a divina Escritura que infundiu um sono em Adão, e que, estando este a dormir, lhe tirou uma costela [...], de que formou a nossa mãe Eva; e, assim que Adão acordou e a viu, disse: “Esta é carne da minha carne; e o osso dos meus ossos”; e Deus disse: “Por esta deixará o homem pai e mãe, e serão dois numa só carne”; e então foi instituído o [...] matrimônio, com laços tais, que só a morte os pode desatar, e tamanha força e virtude tem este [...], que faz de duas pessoas diferentes uma mesma carne [...]. Daqui vem que, sendo a carne da esposa a mesma do esposo, as nódoas que nela caem, ou os defeitos que se procuram, redundam na carne do marido, ainda que ele não haja, como dito fica, dado ocasião para aquele dano; porque, assim como a dor de um pé ou de qualquer membro do corpo humano se sente no corpo todo, por todo ele ser da mesma carne, e a cabeça padece o incômodo do ínfimo dedo do pé se bem que não foi ela que o causou, assim o marido é participante da desonra da mulher, por ser uma mesma coisa com ela, e como as honras e desonras do mundo sejam todas, e procedam de carne e sangue, e as da má mulher sejam deste gênero, forçoso é que o marido caiba parte delas, e seja tido por desonrado [mesmo] sem o saber.

Termina (aeeee!!!) na próxima postagem...

(Postagem publicada originalmente em 18 de março de 2011)

Uma questão de escolha

Cena de Shrek 3. A emoção vem no início e não perdura. É o amor mais calmo, centrado, que capacita o cumprimento das promessas.

Continuando...

As pessoas tiram dos livros a idéia de que, se casarem com a pessoa certa, continuarão “apaixonadas” a vida toda. O resultado é que, quando acham que não estão mais apaixonadas, concluem que cometeram um erro e podem mudar – sem perceber que quando mudarem, o glamour do novo amor acabará se perdendo da mesma forma que desapareceu do antigo. Nessa área da vida, como em qualquer outra, a emoção vem no começo e não perdura. A emoção que um garoto sente com a idéia de voar pela primeira vez não durará quando ele já estiver na Força Aérea aprendendo a voar. O encanto que sentimos quando vemos um lugar bonito pela primeira vez esmorece quando passamos a morar lá de fato.
Outra idéia que tiramos das novelas e do cinema é que “apaixonar-se” seja algo irresistível; algo que a gente simplesmente “pega” como sarampo. E, por acreditarem nisso, muitas pessoas casadas desistem logo ou jogam a toalha quando se vêem atraídas por uma nova relação. Mas estou inclinado a acreditar que essas paixões irresistíveis são mais raras na vida real do que nos livros, ou pelo menos, com certeza, quando se é adulto. Quando encontramos uma pessoa bonita, inteligente e simpática, é claro que, em certo sentido, amamos, admiramos e louvamos essas boas qualidades. Mas será que não é uma questão de escolha deixar a coisa virar ou não o que chamamos de “estar apaixonado”? [Grifo meu] Não há dúvida de que se as nossas mentes estiverem cheias de novelas, peças e músicas sentimentais, e os nossos corpos saturados de álcool, acabaremos achando que todo tipo de amor seja aquele; é como se houvesse uma valeta no seu caminho. Toda a água da chuva escorreria por essa valeta, da mesma forma que, se você usasse óculos de lente azul, tudo pareceria azul. Mas isso seria nossa própria culpa [grifo meu]. (C. S. Lewis).

E aqui está um dos escritos mais valiosos de Lewis a respeito desse grande tema. Os grifos que fiz, é claro, não foram à toa. Não posso evitar o deslumbre ante uma mulher deslumbrante. Isso é óbvio. Mas acredito piamente que posso (e devo!) controlar o que farei com esse sentimento, que faz o coração bater mais rápido e a garganta apertar. É esse controle que me diferencia de um cão, por exemplo, que sai desesperado atrás de uma cadela no cio tão logo ele a enxergue ou sinta seu cheiro. Se você acha isso difícil demais pra você, bem vindo ao meu clube. Mas só deixarei você permanecer nele se reconhecer que Lewis, apesar da imensa dificuldade na questão, marcou um ponto seguro em mais essa peculiaridade da natureza humana.
Continua na próxima postagem...

(Postagem publicada originalmente em 15 de março de 2011)

Não prometa ter dor de cabeça sempre


Continuando...

Mas o autor de As Crônicas de Nárnia sabe (e pode) falar também na sua própria voz:

O que chamamos de “estar apaixonado” é um estado glorioso e que em diversos sentidos é muito bom para nós. Ele nos torna mais generosos e corajosos, abrindo os nossos olhos não apenas para a beleza da amada, mas para todo tipo de beleza, subordinando nossa sexualidade animal (principalmente no começo); nesse sentido, o amor é o grande conquistador da luxúria. Ninguém em sã consciência negaria que estar apaixonado é bem melhor do que a sensualidade comum, ou o frio egocentrismo. Mas, como eu disse anteriormente, “a coisa mais perigosa que se pode fazer é apresentar um instinto qualquer da nossa própria natureza como se fosse algo que você tivesse que perseguir a todo custo”. Estar apaixonado é uma coisa boa, embora não seja a melhor de todas. Há muitas coisas abaixo disso, mas também existem coisas acima. Você não pode tornar isso a base de toda uma vida. Trata-se de um sentimento nobre, mas que não deixa de ser só um sentimento. Ora, não se pode esperar que nenhum sentimento dure para sempre em toda a sua intensidade, nem mesmo que dure. Conhecimentos, princípios e hábitos podem durar; porém os sentimentos vão e vêm. E, com certeza, não importa o que as pessoas digam, o fato é que a condição que chamamos de “estar apaixonado” não costuma durar muito tempo. (C. S. Lewis).

A idéia de que “estar apaixonado” é a única razão para continuar casado, na verdade, não deixa espaço para o casamento como um contrato ou uma promessa. Se o amor é tudo que há, então a promessa não terá mais nada a acrescentar; e se ela não acrescenta nada, então nem deveria ser feita. O mais curioso é que o próprio casal que se ama, enquanto está realmente apaixonado, sabe disso melhor do que os que ficam falando muito de amor. Chesterton destacava que quem está apaixonado tem uma propensão natural a se comprometer com promessas. Todas as canções de amor por todo o mundo são cheias de juras de fidelidade eterna. A lei cristã não impõe nada à paixão amorosa que seja estranho à própria natureza dessa paixão; só o que se exige é que os amantes levem a sério algo que a paixão os leve a fazer.
E é claro que a promessa de ser sincero à amada enquanto for vivo que eu faço quando estou apaixonado, e porque estou apaixonado, me compromete a ser verdadeiro, mesmo quando eu deixar de estar apaixonado. Uma promessa deve referir-se a coisas que eu possa fazer, a tomadas de ação; ninguém pode prometer ter o mesmo sentimento por toda a vida. Da mesma forma como também não poderia prometer ter dor de cabeça ou fome sempre. (C. S. Lewis).

Continua na próxima postagem...

(Postagem publicada originalmente em 11 de março de 2011)

Desconstruindo a história do casamento...


Continuando...
Aquele diabo velho, Screwtape, continua agindo...

Agora é que vem o mais engraçado. O Inimigo referiu-se a um casal como “uma só carne”. Ele não estava se referindo a “um casal que vive a felicidade no casamento” ou a “um casal que casou porque estava apaixonado”, mas você pode muito bem fazer os seres humanos ignorarem isso. Você também pode fazê-los esquecer que o homem que eles chamam de Paulo não limitou isso a casais casados. A simples copulação, para ele, já os tornava “uma só carne”. Assim, você pode levar os seres humanos a entenderem o “estar apaixonado” como uma expressão retórica, que seria, de fato, uma mera descrição da relação sexual. A verdade é que não importa se um homem se deita com uma mulher, e nem se eles gostam um do outro ou não. O que importa é que esse ato trará uma relação transcendente permanente entre eles, a qual será eternamente desfrutada ou eternamente suportada. A partir da afirmação verdadeira de que essa relação transcendente, se seguida de forma obediente, tinha a intenção de resultar, mais do que freqüentemente, na afeição e constituição de uma família, os seres humanos podem ser levados a inferir que a crença falsa de que a mistura de afeição, medo e desejo, a qual eles chamam de “estar apaixonado”, seja a única coisa capaz de fazer um casamento feliz e santo. É fácil induzi-los a esse erro, já que no [Mundo] Ocidental o “estar apaixonado”, na maioria das vezes, precede os casamentos realizados em obediência aos desígnios do Inimigo, isto é, com a intenção de fidelidade, instituição de família e boa vontade; da mesma forma que as emoções religiosas muitas vezes, ainda que nem sempre, estão presentes no processo de conversão. (C. S. Lewis).

Continua na próxima postagem...

(Postagem publicada originalmente em 11 de março de 2011)

Racionalizando o casamento adequadamente

Tolkien e sua esposa Edith em idade já avançada.

Continuando...
Tolkien era mesmo amigo de C. S. Lewis...

Este é um mundo decaído. A desarticulação do instinto sexual é um dos principais sintomas da Queda. O mundo tem “ido de mal a pior” ao longo das eras. As várias formas sociais mudam, e cada novo modo tem seus perigos especiais: mas o “duro espírito da concupiscência” vem caminhando por todas as ruas, e se instalou em todas as casas, desde que Adão caiu. [...].
[Portanto], a essência de um mundo decaído é que o melhor não pode ser alcançado através do divertimento livre, ou pelo o que é chamado “auto-realização” (em geral um belo nome para auto-indulgência, completamente hostil à realização de outros aspectos da personalidade), mas pela negação, pelo sofrimento. A fidelidade no casamento cristão acarreta nisto: grande mortificação. Para um homem cristão não há saída. O casamento pode ajudar a santificar e direcionar os desejos sexuais dele ao seu objeto apropriado; a graça de tal casamento pode ajudá-lo na luta, mas a luta permanece. A graça não irá satisfazê-lo – tal como a fome pode ser mantida à distância com refeições regulares. Ela oferecerá tantas dificuldades à pureza própria desse estado quanto fornece facilidades. Homem algum, por mais que amasse verdadeiramente sua noiva quando jovem, viveu fiel a ela como uma esposa em mente e corpo sem um exercício consciente e deliberado da vontade, sem abnegação [grifo meu]. Isso é dito a poucos – mesmo àqueles educados “na Igreja”. Aqueles de fora parecem que raramente ouviram tal coisa. Quando o deslumbramento desaparece, ou simplesmente diminui, eles acham que cometeram um erro, e que a verdadeira alma gêmea ainda está para ser encontrada. A verdadeira alma gêmea com muita freqüência mostra-se como sendo a próxima pessoa sexualmente atrativa que aparecer. Alguém com quem poderiam de fato ter casado de uma maneira muito proveitosa se ao menos –. Por isso o divórcio, para fornecer o “se ao menos”. (Tolkien, escrevendo para seu filho, Michael).

Túmulo do casal em Oxford. Na lápide, uma referência a uma das mais antigas e belas histórias de Tolkien - o romance entre Beren e Lúthien.

Continua na próxima postagem...

(Postagem publicada originalmente em 7 de março de 2011)

A agenda de Deus X a agenda do Inferno para o casamento


Continuando...
Se vejo essa relação pré-casamento (com outros humanos e com Deus) como algo altamente sério e carente de comprometimento cristão, que vou dizer do casamento propriamente dito? Os mesmos princípios de comprometimento e “racionalidade acima dos sentimentos” devem se fazer presentes, agora de forma infinitamente mais profunda. Mas o mundo, é claro, passa longe disso e, portanto, temos a traição, o adultério, os cônjuges se enjoando um do outro, a separação, o divórcio... E lamento lembrar que mesmo em lares cristãos isso acontece... O amor cristão, o verdadeiro amor cristão, seja qual for a área da vida ou o tipo de relacionamento (incluso o casamento), é uma decisão racional. No Cristianismo, Razão e Amor não são opostos, mas este não existe sem aquele. E, no caso do casamento, a decisão de amar parece ser diária. Esse é o verdadeiro amor que agrada a Deus, sendo parte principal do nosso culto racional a Ele. Esse amor é um reflexo do amor que Ele tem por nós. Devemos procurar dar aos outros a mesma segurança que Deus nos concede – não importa o que façamos, ou deixemos de fazer, Ele não nos amará menos. Sua decisão por nós é eterna.
Porém não vou me arriscar a falar tanto de casamento não sendo casado. Até porque excelentíssimos escritores, que experimentaram essa relação, já fizeram isso com muita perspicácia e proeza. Deixarei que eles falem por mim...

A idéia cristã do casamento baseia-se nas palavras de Cristo de que um homem e sua esposa devem ser considerados um único organismo – pois é isso que a expressão “uma só carne” significa. E os cristãos acreditam que, se Deus disse isso, não estava dando expressão a nenhum sentimento, mas constatando um fato – da mesma forma como uma pessoa constata um fato quando diz que a fechadura e a chave formam um só mecanismo, ou que um violino e o seu arco são um só instrumento musical. O inventor da máquina humana estava querendo nos dizer que as duas metades, a masculina e a feminina, foram feitas para combinarem não simplesmente no nível sexual, mas totalmente. A monstruosidade do relacionamento sexual fora do casamento está em que os que cedem ao desejo estão, com isso, tentando isolar um tipo de união (a sexual) de todos os outros tipos de união que foram pensados para acompanhá-la e maquiar a união total.  A atitude cristã não significa que haja alguma coisa errada quanto ao prazer sexual, mais do que o prazer de comer. Significa que você não deve isolar aquele prazer e buscá-lo por si mesmo, da mesma forma que não deve buscar os prazeres do paladar, sem engolir e digerir, mastigando os alimentos e vomitando-os. (C. S. Lewis).

O mesmo autor, usando novamente a personagem Screwtape (aquele mesmo diabo experiente ensinando um diabo aprendiz), escreve:

As exigências do Inimigo sobre os seres humanos tomam a forma de um dilema: ou se submetem à abstinência total ou à monogamia absoluta. Desde a primeira grande vitória do Nosso Pai, nós demos um jeito para que a primeira alternativa fosse difícil demais para eles. A segunda, nos últimos séculos, temos feito com que se aproxime cada vez mais de uma rota de fuga. Para isso usamos os poetas e autores de novelas, convencendo os seres humanos de que a experiência passageira, curiosa e normalmente de curta duração, que eles chamam de “estar apaixonado”, seja a única razão respeitável para o casamento; e que o casamento pode, e deve, manter esses excitamentos permanentes e que um casamento sem esses excitamentos não é mais obrigatório. Essa idéia é a nossa paródia da idéia originária do Inimigo.
Toda a filosofia do Inferno baseia-se no reconhecimento da suposição de que uma coisa não é outra coisa, e, especialmente, que um eu não é outro eu. Meu bem é meu bem, e o seu bem é o seu. O que um ganha, o outro tem que perder. Até mesmo um objeto inanimado é o que é por exclusão de todos os outros objetos do espaço que ocupa; se ele se expande, isso se dá, ou pela expulsão dos demais objetos que estão a seu lado, ou então pela absorção deles. O “eu” age do mesmo jeito. No caso do mundo animal essa absorção assume a forma de uma cadeia alimentar; para nós, ela significa a absorção da vontade e liberdade de um “eu” mais fraco para dentro de um “eu” mais forte. “Ser” significa [para nós] “estar em competição”. (C. S. Lewis).

Continua na próxima postagem...

(Postagem publicada originalmente em 3 de março de 2011)

Fique firme não ficando!


Continuando...

Disse que falaria sobre “ficar”. Mas lembrei que tenho uma carta inteira já escrita sobre isso... O destinatário me autorizou a colocar alguns trechos dela aqui, sendo que eu troquei os nomes verdadeiros por nomes fictícios.
Vocês vão ver que presto muita atenção para aquilo que diz o pastor Eiró naquela sua famigerada palestra, hehehehe...