Continuando...
Se vejo essa relação pré-casamento (com outros humanos e com Deus) como algo altamente sério e carente de comprometimento cristão, que vou dizer do casamento propriamente dito? Os mesmos princípios de comprometimento e “racionalidade acima dos sentimentos” devem se fazer presentes, agora de forma infinitamente mais profunda. Mas o mundo, é claro, passa longe disso e, portanto, temos a traição, o adultério, os cônjuges se enjoando um do outro, a separação, o divórcio... E lamento lembrar que mesmo em lares cristãos isso acontece... O amor cristão, o verdadeiro amor cristão, seja qual for a área da vida ou o tipo de relacionamento (incluso o casamento), é uma decisão racional. No Cristianismo, Razão e Amor não são opostos, mas este não existe sem aquele. E, no caso do casamento, a decisão de amar parece ser diária. Esse é o verdadeiro amor que agrada a Deus, sendo parte principal do nosso culto racional a Ele. Esse amor é um reflexo do amor que Ele tem por nós. Devemos procurar dar aos outros a mesma segurança que Deus nos concede – não importa o que façamos, ou deixemos de fazer, Ele não nos amará menos. Sua decisão por nós é eterna.
Porém não vou me arriscar a falar tanto de casamento não sendo casado. Até porque excelentíssimos escritores, que experimentaram essa relação, já fizeram isso com muita perspicácia e proeza. Deixarei que eles falem por mim...
A idéia cristã do casamento baseia-se nas palavras de Cristo de que um homem e sua esposa devem ser considerados um único organismo – pois é isso que a expressão “uma só carne” significa. E os cristãos acreditam que, se Deus disse isso, não estava dando expressão a nenhum sentimento, mas constatando um fato – da mesma forma como uma pessoa constata um fato quando diz que a fechadura e a chave formam um só mecanismo, ou que um violino e o seu arco são um só instrumento musical. O inventor da máquina humana estava querendo nos dizer que as duas metades, a masculina e a feminina, foram feitas para combinarem não simplesmente no nível sexual, mas totalmente. A monstruosidade do relacionamento sexual fora do casamento está em que os que cedem ao desejo estão, com isso, tentando isolar um tipo de união (a sexual) de todos os outros tipos de união que foram pensados para acompanhá-la e maquiar a união total. A atitude cristã não significa que haja alguma coisa errada quanto ao prazer sexual, mais do que o prazer de comer. Significa que você não deve isolar aquele prazer e buscá-lo por si mesmo, da mesma forma que não deve buscar os prazeres do paladar, sem engolir e digerir, mastigando os alimentos e vomitando-os. (C. S. Lewis).
O mesmo autor, usando novamente a personagem Screwtape (aquele mesmo diabo experiente ensinando um diabo aprendiz), escreve:
As exigências do Inimigo sobre os seres humanos tomam a forma de um dilema: ou se submetem à abstinência total ou à monogamia absoluta. Desde a primeira grande vitória do Nosso Pai, nós demos um jeito para que a primeira alternativa fosse difícil demais para eles. A segunda, nos últimos séculos, temos feito com que se aproxime cada vez mais de uma rota de fuga. Para isso usamos os poetas e autores de novelas, convencendo os seres humanos de que a experiência passageira, curiosa e normalmente de curta duração, que eles chamam de “estar apaixonado”, seja a única razão respeitável para o casamento; e que o casamento pode, e deve, manter esses excitamentos permanentes e que um casamento sem esses excitamentos não é mais obrigatório. Essa idéia é a nossa paródia da idéia originária do Inimigo.
Toda a filosofia do Inferno baseia-se no reconhecimento da suposição de que uma coisa não é outra coisa, e, especialmente, que um eu não é outro eu. Meu bem é meu bem, e o seu bem é o seu. O que um ganha, o outro tem que perder. Até mesmo um objeto inanimado é o que é por exclusão de todos os outros objetos do espaço que ocupa; se ele se expande, isso se dá, ou pela expulsão dos demais objetos que estão a seu lado, ou então pela absorção deles. O “eu” age do mesmo jeito. No caso do mundo animal essa absorção assume a forma de uma cadeia alimentar; para nós, ela significa a absorção da vontade e liberdade de um “eu” mais fraco para dentro de um “eu” mais forte. “Ser” significa [para nós] “estar em competição”. (C. S. Lewis).
Continua na próxima postagem...
(Postagem publicada originalmente em 3 de março de 2011)
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