quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Não prometa ter dor de cabeça sempre


Continuando...

Mas o autor de As Crônicas de Nárnia sabe (e pode) falar também na sua própria voz:

O que chamamos de “estar apaixonado” é um estado glorioso e que em diversos sentidos é muito bom para nós. Ele nos torna mais generosos e corajosos, abrindo os nossos olhos não apenas para a beleza da amada, mas para todo tipo de beleza, subordinando nossa sexualidade animal (principalmente no começo); nesse sentido, o amor é o grande conquistador da luxúria. Ninguém em sã consciência negaria que estar apaixonado é bem melhor do que a sensualidade comum, ou o frio egocentrismo. Mas, como eu disse anteriormente, “a coisa mais perigosa que se pode fazer é apresentar um instinto qualquer da nossa própria natureza como se fosse algo que você tivesse que perseguir a todo custo”. Estar apaixonado é uma coisa boa, embora não seja a melhor de todas. Há muitas coisas abaixo disso, mas também existem coisas acima. Você não pode tornar isso a base de toda uma vida. Trata-se de um sentimento nobre, mas que não deixa de ser só um sentimento. Ora, não se pode esperar que nenhum sentimento dure para sempre em toda a sua intensidade, nem mesmo que dure. Conhecimentos, princípios e hábitos podem durar; porém os sentimentos vão e vêm. E, com certeza, não importa o que as pessoas digam, o fato é que a condição que chamamos de “estar apaixonado” não costuma durar muito tempo. (C. S. Lewis).

A idéia de que “estar apaixonado” é a única razão para continuar casado, na verdade, não deixa espaço para o casamento como um contrato ou uma promessa. Se o amor é tudo que há, então a promessa não terá mais nada a acrescentar; e se ela não acrescenta nada, então nem deveria ser feita. O mais curioso é que o próprio casal que se ama, enquanto está realmente apaixonado, sabe disso melhor do que os que ficam falando muito de amor. Chesterton destacava que quem está apaixonado tem uma propensão natural a se comprometer com promessas. Todas as canções de amor por todo o mundo são cheias de juras de fidelidade eterna. A lei cristã não impõe nada à paixão amorosa que seja estranho à própria natureza dessa paixão; só o que se exige é que os amantes levem a sério algo que a paixão os leve a fazer.
E é claro que a promessa de ser sincero à amada enquanto for vivo que eu faço quando estou apaixonado, e porque estou apaixonado, me compromete a ser verdadeiro, mesmo quando eu deixar de estar apaixonado. Uma promessa deve referir-se a coisas que eu possa fazer, a tomadas de ação; ninguém pode prometer ter o mesmo sentimento por toda a vida. Da mesma forma como também não poderia prometer ter dor de cabeça ou fome sempre. (C. S. Lewis).

Continua na próxima postagem...

(Postagem publicada originalmente em 11 de março de 2011)

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