quinta-feira, 1 de novembro de 2012

"A Tempestade" ou "Paz, menino!"


Transtornar o mundo, ou seja, fazer aquilo que o mundo aborrece e o faz virar de cabeça pra baixo, é uma tarefa difícil. É difícil em casa, é difícil na igreja e é difícil na universidade... Enquanto estive cursando Letras na UEPA, o desafio foi constante: como viver minha vida de universitário glorificando a Deus em tudo o que fazia? Como fazê-lo num ambiente em que o Evangelho é constantemente tolhido? Muitas vezes fracassei; outras, creio que o fiz bem (minha colega T. sempre fez isso melhor que eu)...
O texto abaixo foi uma oportunidade que penso ter aproveitado (ainda que timidamente). A professora de Literatura Infanto-Juvenil fez com a turma um passeio pelo centro histórico de Belém. O objetivo era tirar fotos de tudo aquilo que nos chamasse a atenção. Depois, já em casa, deveríamos escolher uma das imagens e construir um texto literário baseado na foto escolhida. A versão final do meu texto ficou assim...


A TEMPESTADE
(Por André Felipe)

Começou quando eu ainda era bem pequeno. Era início do ano – janeiro, fevereiro –, não lembro direito. Só lembro que foi a maior tempestade que já vi na vida. Apesar do barulho dos trovões, e da água castigando severamente o chão, e do vento uivando loucamente, dava pra ouvir galhos e troncos inteiros sendo partidos e postes elétricos pipocando. Ficamos sem luz aquela tarde e a noite toda. Mesmo assim, minha mãe saiu pela casa tirando todos os eletrodomésticos da tomada. Também se despediu da amiga e desligou o telefone. Não era seguro falar ao telefone com um tempo daqueles. Quando um raio caiu no quintal da nossa casa, destruindo completamente uma das colunas que sustentavam a caixa d’água, eu não aguentei. Entrei em desespero.
“Eu não quero morrer, mãe! Eu não quero morrer!”
Minha mãe mostrou surpresa. Talvez estivesse tão ocupada checando se tudo estava fora da tomada, que nem tinha percebido o quanto eu estava com medo. Então ela me levou até o meu quarto, sentou comigo na cama e disse simples e docemente:
“Paz, menino... Tu não vais morrer coisa nenhuma.”
Mas eu insistia no meu medo.
Foi então que ela me contou uma história bem antiga de uns homens que saíram num barco...
“E com eles ia Jesus. No meio da viagem, uma grande tempestade começou. E aqueles homens, mesmo acostumados às peças que prega o mar, ficaram com muito medo de morrer. Mas Jesus mostrou que eles não precisavam ficar assustados, pois se levantou e repreendeu a tempestade e tudo ficou quieto... E ele pode fazer a mesma coisa com qualquer tempestade. O vento e as ondas ainda se lembram da voz que lhes ordenou paz de dentro do barco.”
E, dizendo isso, beijou-me, deitou-me e se pôs a cantar uma música muito bonita, uma música que eu nunca vou esquecer. E nem fui percebendo que, enquanto mamãe cantava, a tempestade lá fora ia parando...

Depois foi com a prova de matemática. Nunca fui bom em matemática e, por que a turma estava bagunçando muito, a professora tinha prometido uma prova de lascar. Entrei em desespero. Seria minha primeira nota baixa com certeza. Quando minha mãe soube de tudo, apenas disse:
“Paz, menino... Tu não vais tirar nota baixa. E, mesmo se tirar, não vai ser o fim do mundo...”
E contou de novo a mesma história. E cantou a mesma canção...

Uma vez cheguei em casa muito triste porque tinha brigado na escola com o meu melhor amigo. Minha mãe percebeu que algo estava errado. Perguntou logo. E eu lhe disse que a gente tinha brigado tão feio que, provavelmente, nunca mais seríamos amigos.
Mas minha mãe olhou pra mim muito calma e disse:
“Paz, menino... Apenas faz a tua parte. Por que vocês não tentam conversar amanhã, e resolver tudinho? Aí vocês vão ser de novo tão amigos quanto sempre.”
E lá ela me contou a história. E me cantou a canção...

Na véspera do dia da minha primeira prova de vestibular – nossa! – não me restavam unhas nos dedos. Não queria saber de nada. Não conseguia parar de pensar na dita prova...
Minha mãe me olhou daquele jeito e eu já sabia que ela ia dizer:
“Paz, menino... Tu estudaste o ano inteiro. Foste tão responsável. Não precisa ficar preocupado. Tu vais passar...”
E, como eu esperava, ela me contou aquela história. Ia cantar também, mas acho que viu no meu olhar que alguma coisa dentro de mim não queria mais que a mamãe cantasse. Mas quem sabe não tenha sido o olhar, e sim a barbicha que começava a nascer...

Quando cheguei em casa de coração partido porque minha namorada e eu terminamos, minha mãe não perguntou nada. Ela apenas disse:
“Paz, menino...”
E não contou história, nem cantou canção. Mas ela sabia que a voz dela contando e cantando estavam na minha cabeça enquanto eu deitava, deprimido, na cama...
E foi assim quando tive que entregar meu TCC, foi assim quando chegou o primeiro emprego, quando fui despedido dele, quando casei, quando tive a primeira filha e quando ela, tão pequena, adoeceu gravemente...
Minha mãe, em todos esses momentos e tantos outros, estava sempre ali para me lembrar e dizer: “Paz, menino...”
Mas minha mãe, talvez sem perceber, me ensinou outra lição além da de não se desesperar ante aos problemas. Ela me ensinou que criança e adolescente tem problemas tanto quanto gente adulta. Vejo hoje os adultos tentando resolver os problemas das crianças dizendo: “Trata logo de parar com essa besteira! Isso não é nada! Espera pra ver quando tu tiveres a minha idade! Aí tu vais saber o que é vida difícil, vida estressante...”. Gente que diz assim esqueceu como foi ser criança e adolescente... Eu tenho tentado não esquecer, como minha mãe não esqueceu. Ela sabia que o meu problema de matemática da 4ª série era tão problema pra mim quanto uma pia entupida, uma máquina de lavar quebrada e o dinheiro faltando eram pra ela.
Mas um dia eu recebo um telefonema e sou informado que minha mãe fez a passagem...
Senti o mundo parando, um frio que vinha de dentro que nem o sol do meio-dia fazia passar. Era como se aquela primeira e grande tempestade de que tive medo quando pequeno tivesse retornado com maior intensidade... Então percebi que no meu último momento com minha mãe eu deveria mostrar que aprendi sua grande lição cristã. Disse para mim mesmo:
“Paz, menino... Ela está num lugar muito melhor agora...”
E, enquanto dirigia até sua casa (cheia de parentes e amigos), me peguei cantando a canção que ela me cantava quando era criança. Que saudade eu senti daquela canção, daquela voz!
Chorei bastante no velório... E no enterro... Mas não estava em desespero. Uma parte de mim até estava feliz. Minha mãe estava em paz...

***

Caminhando um dia pela Castilhos França – que surpresa! Como não tinha visto aquilo antes? Sempre passei por ali... Será que haviam colocado agora? Mas não; estava já toda manchada da chuva...
Hoje, sempre que posso, nos intervalos pra almoço, vou até aquela estátua e sento no banco mais próximo. E fico lembrando todas as vezes em que mamãe me trouxe paz. Fico um tempão a olhar aquela mão estendida, ordenando paz às ondas, aos ventos, às tempestades.
Um dia, um sujeito curioso veio e me perguntou o que eu fazia indo ali tantas vezes e ficando por tanto tempo. E contei a minha história. O homem ouviu com atenção. Mas quis saber como era e o que dizia a letra da canção da mamãe. Agora que estou escrevendo isso, lembro perfeitamente da canção inteira, porém naquela hora só me lembrei da minha parte preferida...

Minh’alma, paz! Se amigos vão partir,
Se só há trevas nos vales aqui,
Conhecerás Seu amor e poder,
Que vêm paliar tua dor e teu sofrer.
Minh’alma, paz! As ondas lembrarão
Da voz que ordena paz da embarcação.

 

(Postagem publicada originalmente em 25 de março de 2011)

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