Uma vez me perguntaram se eu sou virgem. Foi no final de uma aula de inglês, quando cursava já o último nível. Todos lá sabiam que sou cristão. Eu disse, bem naturalmente, que sim – que sou virgem. Quando perguntaram por que ainda o sou e se eu não tenho medo de casar com alguém, ambos virgens, e depois ver que não obtenho prazer com aquela pessoa – quando fizeram tais perguntas, eu pensei comigo mesmo o seguinte...
Deus, para início de conversa, não aprova que pessoas não casadas mantenham a relação que Ele criou especialmente para os casados. No Seu plano original, o sexo era para ser desfrutado somente nesse contexto. E mais: no Seu plano original, cada homem está para uma mulher e vice-versa. Está tudo lá, no livro de Gênesis, na história da Criação (Gn 1-2).
“Criação” é uma palavra importante aqui. Todas as coisas que existem no mundo natural não decaído (o mundo não alterado pelo homem e seu pecado) foi Deus que criou. Absolutamente todas. Deus criou as coisas que chamamos de luz, ar, água, terra, fogo, plantas, animais... E criou também aquelas outras coisas as quais chamamos de trabalho, descanso, sono, fome, sede, curiosidade, sexo, paladar, prazer... Em meio a tantas coisas criadas, Ele criou uma classe especial de seres, semelhantes a Ele, no sentido de que tais seres seriam dotados do que chamamos de Razão. Em termos práticos, isso quer dizer que essa classe de criaturas, diferentemente das demais, teria certa autonomia, liberdade para pensar em coisas “novas”, aproveitando e desfrutando das outras coisas criadas como as já citadas. Tais seres foram, assim, dotados com a capacidade de decidir, racionalmente, por isto ou aquilo; foram dotados com o que chamamos de consciência. Essa classe se autodenomina de seres humanos; ou seja, estou falando de nós mesmos, é claro.
Utilizando-se da Razão, da consciência e de outras habilidades com as quais fomos dotados por Deus, devíamos, desde o início, “estar ocupados entendendo, moldando, projetando e usando a criação de Deus de um modo que chame atenção ao valor dele e desperte adoração” (John Piper). O ser humano fazia isso muito bem antes da Queda. Ele sujeitava e dominava sobre a Terra de forma santa, produzindo uma Cultura igualmente santa.
Mas perceba que a Bíblia diz que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. Não diz que fomos feitos iguais ou idênticos a Deus. Creio que, pelo termo semelhança, podemos dizer que recebemos certos atributos que são próprios de Deus (como a Razão); mas não somos a Divindade, nem podemos dizer que toda Sua essência e Seus atributos se acham em nós. Deus, por exemplo, cria do nada – Sua é a “Chama Imperecível” (Tolkien) – e somente Ele é capaz disso. Nós, humanos, não criamos nada do nada. Esse foi um atributo que Deus reservou para Si somente. Tudo o que existe no mundo e que não foi criado diretamente por Deus é um derivado de algo que já existia, criado por Ele. Você pode agora pensar na coisa mais maravilhosa, original e criativa; e, logo em seguida, vai perceber que ela está de alguma forma baseada em outro ser já existente e só é possível por causa da existência prévia desse ser. A tecnologia mais avançada terá o elemento que chamamos de carbono ou o que chamamos de hidrogênio (ou algum outro elemento), criados do nada por Deus e não por nós, humanos. Nossa criatividade é limitada até mesmo naquilo que não pode ultrapassar o âmbito imaginativo, mas que, por ser imaginativo, alcança limites mais distantes – unicórnios, centauros, dragões, ETs, vampiros, elfos, Godzillas, etc.; tudo o que imaginamos e reconhecemos como não real também vem de coisas criadas do nada por Deus (só imaginamos unicórnios porque Deus criou os cavalos; e assim por diante).
Tolkien, tido como o pai da Alta-Fantasia, percebendo tal limitação, chamou a isso de Subcriação (uso aqui a palavra “limitação” por falta de uma melhor, já que o professor, filólogo e escritor nunca objetivou rebaixar tal capacidade nossa) – essa destreza que nos habilita o vínculo operativo entre a imaginação e o resultado final; assim Tolkien a definiu. Em consonância, novamente nas palavras do pregador John Piper, seu xará, temos que:
Se você é Deus, seu trabalho é criar do nada. Se você não é Deus, mas é como Deus – isto é, se você é humano – seu trabalho é pegar o que Deus fez e moldá-lo e usá-lo para que ele, Deus, fique engrandecido.
Todavia, com a Queda, tudo em nós trabalha para que moldemos o mundo de forma que Deus não seja nada além de mais um elemento a ser moldado, de forma que nem tudo aquilo que subcriamos é necessariamente bom.
Mas o que isso tudo tem a ver com o fato de eu ser virgem, e de ter certeza de que estou obedecendo a Deus me guardando assim?
Disse mais em cima que o poder de “criar do nada” foi um atributo que Deus reservou para Si somente. Significa que não somos apenas nós, humanos, que subcriamos, mas há outra classe de seres criada por Deus que também não pode criar do nada. Tal classe é, como se sabe no Cristianismo, a dos anjos. Segundo a Bíblia de Estudo de Genebra:
Os anjos [...] constituem uma das duas espécies de seres pessoais criados por Deus [...]. Multidões em número (Mt 26.53; Ap 5.11), os anjos são agentes morais inteligentes. Não têm corpo nem são comumente visíveis, ainda que possam manifestar-se naquilo que parece ser uma forma física (Gn 18.2-19.22; Jo 20.12-13; At 12.7-10). Não se casam nem estão sujeitos à morte (Mt 22.30; Lc 20.35-36). Eles podem mover-se de um ponto a outro no espaço e muitos podem concentrar-se numa pequena área (Lc 8.30, onde a referência é a anjos caídos).
Como os seres humanos, os anjos estavam originalmente num período de provação, e alguns deles caíram em pecado.
E é essa última assertiva o ponto que quero destacar aqui. Muitas pessoas olham o sexo como algo que se opõem à santidade. Tais pessoas podem se basear nos ritos de purificação do Antigo Testamento e em certas palavras do apóstolo Paulo. Mas a verdade é que foi Deus quem criou o sexo e o prazer que ele proporciona. O diabo, o maioral dos anjos caídos, sendo mais uma das criaturas de Deus, não sendo igual a Ele (embora se aproxime dEle muito mais em semelhança do que nós, humanos), também está sujeito a não poder criar nada de absolutamente novo. Significa dizer que tudo o que ele usa para os seus propósitos (inclusive os que tratam do sexo), por ter ele caído em pecado, é uma mera deturpação ou imitação da criação de Deus ou a ausência da mesma. Enquanto a música divina é “profunda, vasta e bela”, sua música infernal é “fútil e infindavelmente repetitiva; de pouca harmonia” (Tolkien). É só o que ele sabe fazer: distorcer o bem, ou roubá-lo por completo. Ele é tão sujo que usa a própria Escritura (palavras do próprio Deus) para fazer suas tentações (Lc 4:1-13).
Espero, então, que você esteja começando a entender onde quero chegar. Sou virgem e pretendo continuar assim até que eu case não por que pense que o sexo é ruim e que Deus não se agrade dele, mas justamente por que procuro compreender o propósito de Deus para o sexo. Acredito que ter relações fora do âmbito conjugal é um prazer fútil, distorcido pelo diabo. Deus, portanto, ao contrário do que muitos pensam por aí, não é um estraga-prazeres; Ele é, antes, o Inventor dos prazeres; de todos eles, não somente do proporcionado pelo sexo. E o diabo sabe muito bem disso.
C. S. Lewis (vou citá-lo bastante aqui) percebeu isso com clareza quando, na voz de Screwtape (um diabo experiente instruindo um diabo aprendiz), explica:
Nunca se esqueça de que quando estamos lidando com algum prazer na sua forma sadia e normal, estamos, em certo sentido, no território Inimigo. Tenho consciência de que nós temos alcançado muitas almas por meio dos prazeres. Em todo caso, trata-se de invenção dele, não nossa. Foi Ele que criou os prazeres; todas as nossas pesquisas fracassaram na criação de uma só forma de prazer. Tudo o que somos capazes de fazer é encorajar os seres humanos a, vez ou outra, experimentar os prazeres que o Inimigo criou de formas ou intensidades que ele tenha proibido. Portanto, sempre tentamos trabalhar no sentido de afastar as condições naturais de qualquer prazer em direção àquele que seja o menos natural, o menos bem cheiroso ao seu Inventor e o menos prazeroso possível. A fórmula certa é uma dose considerável a mais de desejo, em troca de um prazer cada vez menor! Isso é bem mais seguro e, portanto, tem muito mais estilo. Comprar a alma do homem em troco de nada é tudo que pode de fato contentar o coração de Nosso Pai. E os pensamentos são o ponto e a hora certa para dar início a esse processo.
Como já coloquei em outros lugares, não há nada de errado em descansar ou saborear uma boa comida. Foi Deus quem criou tais prazeres. Mas aí vem o diabo com a técnica descrita acima e surgem a preguiça e a glutonaria. Da mesma forma, não há nada de errado com o sexo. Repito: é criação de Deus. O diabo, não sendo capaz de criar nada, nos oferece o prazer que Deus criou na hora errada, da maneira errada, no grau errado, com as pessoas ou as coisas erradas. E então temos a masturbação, o adultério, a fornicação, o incesto, a pedofilia, o homossexualismo, etc...
Mas aí você pode perguntar: “E por que Deus não nos permite o prazer da forma que quisermos?”. Uma possível resposta parece ser a seguinte: Deus é um ser perfeitamente equilibrado e santo (separado do pecado) e nós fomos criados para refletir esse equilíbrio e essa santidade (Lv 11:45, 20:26; Pv 21:17, 23:1-2, 25:16; Ef 1:4). É isso o que nos faz bem.
Nossas naturezas distorcidas, os demônios que nos tentam, e toda a propaganda contemporânea do prazer conspiram para nos fazer sentir como se os desejos aos quais estamos resistindo fossem tão “naturais”, tão “saudáveis” e tão razoáveis que seria quase perverso e anormal resistir a eles. Cartaz após cartaz, filme após filme, novela após novela, associam a idéia da satisfação dos desejos às idéias de saúde, normalidade, juventude, franqueza e bom humor. Na realidade, essa associação não passa de uma grande mentira. Como todas as poderosas mentiras, essa é baseada na verdade reconhecida anteriormente de que o sexo em si [...] não é nada senão algo “normal” e “saudável”. A mentira está na sugestão de que qualquer ato sexual ao qual possamos ser tentados a qualquer momento também seja saudável e normal. Ora, isso é uma bobagem, sob qualquer ponto de vista, mesmo fora do cristianismo. Entregar-se a todos os seus desejos obviamente leva a impotência, doença, inveja, mentira, disfarce, e a tudo que é oposto a saúde, bom humor e franqueza. (C. S. Lewis).
Porém não quero dar aqui a impressão de que penso que é fácil agir em equilíbrio e santidade... Não é fácil! Mas somos estimulados a tentar sempre...
Muitas pessoas desanimam diante de todas as tentativas sérias de experimentar a castidade cristã, porque acham (antes mesmo de tentar) que ela é impossível. Mas quando uma coisa tem que ser tentada, ninguém deve jamais pensar em termos de possibilidades e impossibilidades. Diante de uma questão ideal formulada em uma comunicação para um exame, costumamos levar em conta se estamos em condições de realizá-lo ou não: diante de uma questão compulsória temos que fazer o melhor que pudermos. Você poderá obter alguns pontos por uma questão imperfeita: certamente você não terá vantagem alguma em deixar a questão em branco. Isso não vale apenas para exames, mas também para a guerra, para a escalada a montanhas, para aprender a andar de skate, nadar ou andar de bicicleta; e até na hora de prender um colarinho duro com os dedos gelados, as pessoas fazem coisas que lhe pareciam quase impossíveis antes de tentar. É maravilhoso ver o que você é capaz de fazer quando é obrigado a fazê-lo.
Podemos, de fato, ter certeza de que a castidade perfeita – da mesma forma que a caridade perfeita – jamais será alcançada por um simples esforço humano. Você tem que apelar para a ajuda de Deus. Mesmo quando você faz isso, pode parecer que não ajudou em nada ou que você tenha recebido menos ajuda do que estava precisando. Não importa. Peça perdão depois de cada falha; é preciso sacudir a poeira e tentar de novo. Muito freqüentemente, o que Deus primeiro nos ajuda a conquistar não é a virtude em si, mas somente a capacidade de sempre tentar de novo. Pois, não importa quão importante possa ser a castidade (ou a coragem, ou a veracidade, ou qualquer outra virtude), quem sabe esse processo nos ajude a treinar os mais importantes hábitos da alma. Isso cura as nossas ilusões sobre nós mesmos e nos ensina a depender de Deus. Por outro lado, aprendemos que não precisamos nos desesperar, mesmo na pior das situações, já que nossas falhas são perdoadas. A única atitude fatal seria sentar-se comodamente, contentando-se com qualquer coisa menos que a perfeição. (C. S. Lewis).
Entendo, assim, que está mais do que claro, explicado e justificado o porquê de eu não concordar com o sexo antes do casamento. Creio também que os mesmos princípios devem reger nosso sonoro “NÃO!” cristão ao costume que nunca sai de moda e que hoje em dia temos chamado de “ficar”.
Continua na próxima postagem...
(Postagem publicada originalmente em 22 de fevereiro de 2011)

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